Bairro Judeu

Budapeste - Bairro Judeu e um bocadinho de história do séc.XX - parte 2

julho 30, 2016


Continuando o post anterior.

No fim do Verão de 1944, tornou-se claro que a Alemanha-Nazi estava a perder a guerra. O governador da época viajou em segredo até Moscovo para negociar os termos de paz, chegando até a anunciar um cessar-fogo. Só que os nazis não gostaram e o governador foi detido e substituído por um governo de extrema direita húngaro. Por esta altura, estabeleceu-se o Gueto de Budapeste: um lugar isolado do mundo exterior, onde não havia fornecimento de alimentos, sem esgotos, onde os corpos daqueles que morriam não eram recolhidos. Mais de metade dos seus habitantes forem enviados para os campos de concentração. Assim, a população judaica de Budapeste foi reduzida de 200.000 para 70.000 habitantes.
Neste Memorial podemos encontrar os nomes de todos os judeus que morreram às mãos dos nazis, no monumento em forma de salgueiro



Mas a história também foi feita de heróis. Raoul Wallenberg foi um diplomata sueco que ente Julho e Dezembro de 1944 atribuiu passaportes a cerca de 10000 judeus, para que estes não fossem deportados para os campos de concentração. Para além disso, conseguiu persuadiu o exército nazi a não destruir o gueto, salvando, assim, mais 70000 pessoas. Por isso, em sua memória, foi dado o seu nome a este museu-memorial. Vale a pena também mencionar dois diplomatas portugueses, Carlos Branquinho e Carlos Garrido também conseguiram salvar cerca de 1000 judeus, ao abriga-los em casas e apartamentos alugados, evitando a sua deportação.



Esta é uma pintura em homenagem ao inventor do cubo de Rubik, que é húngaro

Esta é uma pintura de um jornal desportivo que relata a vitória da Hungria contra a Inglaterra por 6:3
Sinagoga na rua Runbach, construída como homenagem à Cúpula da Rocha em Jerusalém








Sinagoga na rua Kazinczy.

De Dezembro de 1944 a Fevereiro de 1945, Budapeste foi praticamente dizimada As pontes, edifícios públicos e residências foram destruídas. Em Abril o exército vermelho expulsou os últimos nazis da Hungria. Assim, o país ficou sob o domínio da União Soviética, ocupação que só terminou em 1991. Esse período da história, será resumidamente relatado noutro post.



Amanhã sai o último post, que será mais pequeno, mas refere-se a uma das principais atrações de Budapeste, sendo um local totalmente imperdível da cidade
Até à próxima
xoxo

Bairro Judeu

Budapeste - Bairro Judeu e um bocadinho de história do séc.XX - parte 1

julho 29, 2016


Bom dia, alegria!
Já ando há muito para fazer este post, devido ao impacto que esta história teve e continua a ter nos nossos dias. Mais do que nunca, devido aos acontecimentos recentes na Europa, temos de recordar a história, para que esta nunca seja esquecida e jamais de repita.
Das coisas que mais me assusta neste momento é a subida vertiginosa das sondagens da extrema-direita. O atual clima de terror que se vive tem sido usado nos discursos mais radicais, aliado com a alegada impotência dos governos em criar medidas para combater o extremismo e à crise económica a qual tem empurrado muitas famílias para o desespero. Curiosamente, é o mesmo tipo de discurso que o Estado Islâmico usa para recrutar membros: usar o terror como arma contra a impotência e incompetência dos governos para criar melhores condições aos jovens.

Se formos estudar a História do século XX vamos encontrar algumas semelhanças com o que se está a passar agora. A Alemanha tinha acabado de perder guerra, teve de pagar uma multa astronómica devido à primeira guerra mundial, o que a empurrou para uma crise económica sem precedentes, com desempregro a níveis altíssimos e um grande descontentamento social. Vamos fazer a ponte para os dias de hoje: passamos por uma crise económica para a qual não havia memória, as taxas de desemprego jovem estão nos mais altos níveis e os recentes atentados terrotistas, alguns associados a cidadãos com estatuto de refugiado têm aumentado o descontentamento social entre as pessoas.

Agora, aliem isto isto tudo a discurso nacionalista, de dividir a sociedade em dois grupos e que o grupo mais fraco conspira para tomar o poder e impor as suas regras e costumes ao grupo superior. Soa-vos familiar não é? Teve consequências este discurso, como nós estamos recordados. 

Para descobrirmos um bocadinho mais sobre a história dos judeus no século XX decidimos recorrer à Free Walking Tour do Bairro Judeu. Estas excursões são gratuitas e há pelo menos duas por dia e começam em Vörösmarty Ter.

Comecemos pela  Váczi Utca: foi uma grande rua de comércio quando a cidade estava dividida em Buda e Peste e é atualmente uma das mais famosas ruas de Budapeste, onde podemos encontrar várias lojas de retalho, cafés e restaurantes (incluindo o Hard Rock Café). Um conselho: nunca comprem souvenirs aqui, pois é a zona onde são mais caros.




A Hungria tem a maior comunidade judaica na Europa Central e tem a segunda maior sinagoga do mundo. Mas esta população já foi bem maior.
Após perder a Primeira Guerra Mundial, o tratado de paz de Versalhes determinou que a Hungria perde-se 2/3 do seu território, perdendo mais de 3 milhões de habitantes, o que levou a que o país mergulhasse numa grave crise económica, tornando-o num dos mais fracos da Europa Central. Nos anos 30, tornou-se necessária uma política forte já que a Hungria se encontrava no meio de dois grandes estados poderosos, de um lado a Alemanha Nazi e do outro a União Soviética. O objetivo era era evitar a invasão. Em 1941 começaram os primeiros bombardeamentos e um estado de guerra foi declarado entre a Hungria e a União Soviética e centenas de milhares de soldados lutaram nas fronteiras, sofrendo grandes perdas contra o exército vermelho.
Até à ocupação nazi, a Hungria era governada por um parlamento e governo eleitos democraticamente. Apesar das restrições de guerra, havia liberdade de impressa e a vida não era má de todo. Tudo mudou após a ocupação Nazi. Hitler tinha interesse nos recursos materias e humanos do país para levar a cabo a "Solução Final". As regulamentações contra os Judeus começaram em 1938, com a obrigação do uso da estrela amarela. Apesar disso, o governo conseguiu adiar as deportações. A 18 de Março de 1944, Hitler convidou o regente húngaro e aproveitou a sua ausência para substituir o governo que se encarregou das deportações dos judeus, na sua maioria para Auschwitz. A maioria morreu.












A segunda maior sinagoga no mundo, localiza-se na rua Doháni (rua do tabaco em português). Foi construída no século XIX e consegue albergar mais de 3000 pessoas. Esteve em risco de ser destruída pelas tropas nazis mas foi recuperada. Atrás do edifício, podemos encontrar Monumento aos mártires, o cemitério judeu e o parque memorial do Holocausto.





Para não tornar o post demasiado grande (porque ainda falta muita coisa) decidi dividi-lo em três partes. A segunda parte sai amanhã e a terceira depois de amanhã.
Até à próxima
xoxo

Avene

New In #2 do mês de Junho/Julho

julho 28, 2016


Bom dia, alegria!
Agora com máquina fotográfica 100% operacional, hoje venho-vos falar dos produtos que adquiri nos últimos tempos. Era para ter falado de alguns há algum tempo, porque já os tenho há um mês, mas só agora tive tempo.

Começando por alguns produtos da Nívea, que esteve com desconto de 50% no Continente há pouco tempo
Comprei o leite de limpeza que tem uma boa hidratação para essencialmente retirar as impurezas da cara quando não me apetecer lavar cara com sabão. No verão a minha pele torna-se mais seca devido às agressões solares e da água do mar, daí que aposto num produto com maior hidratação.


Depois, qualquer médico sabe o truque barato e bom para atenuar cicatrizes e hidratar bem a pele que é o creme de boião da Nívea. Tenho algum eczema e costumo colar este creme nessas zonas.


O corpo segue a tendência da cara, e pelas mesmas razões. Tenho notado a pele mais seca que o costume e decidi também apostar no creme de banho que tem um cheirinho maravilhoso, sendo também bastante hidratante.


Por fim, um dos meus objetivos é perder peso e tamanho. Decidi também comprar este creme para experimentar para ver se, de facto, tem um efeito remodelador e se ajuda a diminuir a aparência da celulite.


A minha pele pode estar seca, mas em certas partes do rosto, a minha pele continua oleosa. Por isso, para os dias em que faço uma rotina de pele como deve ser comprei esta emusão matificante da Avène, da mesma marca do gel de limpeza que uso à noite.


A minha pele já apanhou muito sol este ano. Como tenho um tom muito claro, facilmente fico cheia de manchas, nomeadamente sardas, pelo que tive de comprar um creme que previna e atenue o aparecimento destas.


Com a pele seca devido à exposição solar, usar um after sun é obrigatório. Não só ajuda a apaziguar a pele mais queimada como também hidrata e refresca.


Quem não gosta daquele efeito ondulado natural que os cabelos adquirem durante o Verão devido à água salgada? O meu cabelo é naturalmente liso, mas no Verão fica com mais volume e ondas. Por isso, decidi experimentar esta linha de cabelos d Tressemmé. Não uso condicionador porque o meu cabelo acaba por ficar mais oleoso



E por último, e não menos importante, ficou aquela que foi a maior compra que fiz nos últimos tempos. Comprar a Naked da Urban Decay era um sonho que tinha há muitos anos. Por isso, aproveitei um desconto de 23% que tinha na Sephora e comprei. Das vezes que já a usei, valeu super a pena.



Gostaram dos produtos? Já usaram algum? Gostavam que falasse de algum em maior pormenor? Deixem tudo nos comentários em baixo
Até à próxima
xoxo

Personal

TAG: Um pouco mais sobre mim

julho 27, 2016


Bom dia, alegria!
Como já vos tinha dito neste post eu adoro responder a TAGs. Desse post, tive um bom feedback da vossa parte e percebi que é sempre algo que as pessoas gostam, porque é divertido e porque permite mostrar o nosso lado mais pessoal. Assim, fui pesquisar na internet mais algumas TAGs que já existem por aí e encontrei esta.

1 - O teu nome
Sofia Ferreira

2 - Onde vives?
Vivo em Braga 

3 - Estado Civil/Tens filhos?
Deixem-me responder isto de forma muito engraçada


4 - Qual a tua comida preferida
Lasanha. Seja de carne, atum, vegetariana. Adoro! Tenho a tradição de comer uma lasanha antes de ter um exame, se for de tarde. Até agora não tive azar.

5 - Comida que tu não gostas?
Bacalhau assado. Chego a comer só o acompanhamento (batatas cozidas/grão/pão com azeite) e, com muito esforço, um bocaadinho de peixe

6 - Qual a tua bebida preferida?
Água

7 - Bebida que não gostas
Refrigerantes com gás, excepto Sprite, para o shandy/panaché

8 - O que gostas menos em ti
Da minha gordura corporal/celulite. O meu objetivo é perder o máximo que conseguir, vai ser uma luta feroz, mas eu vou vencer

9 - Qual o teu pior defeito?
A impaciência. 

10 - O que é importante numa pessoa para ti?
Inteligência, sentido de humor, ser boa pessoa e ser atraente (que é diferente de giro. Digo isto no sentido de ter um traço que o defina e que seja interessante) - será que esta pessoa existe?

11 - Que tipo de fimes que gostas mais?
Adoro filmes de época e de acção.

12 - Qual a tua estação de ano preferida
Primavera. O tempo começa a aquecer, mas ainda não está o forno do Verão, o que já serve para passear.

13 - Quantos irmãos tens?
Nenhum

14 - Praticas algum desporto?
Não, mas fiz natação durante 8 anos e badminton durante 2 anos.

15 - Qual a tua equipa desportiva?
Sofro de uma eterna divisão entre o Marítimo (clube da terra) e o Benfica (clube do coração)

16 - Doces ou Salgados?
Doces

17 - Que animais gostas mais e gostas menos?
Adoro cães e pinguins. Odeio baratas e aranhas.

18 - Que tipo de músicas gostas mais e gostas menos?
Adoro Rock e a maioria das suas variantes (Hard, Alternative, Blues). Não suporto música Pimba

19 - Qual a tua cor preferida?
Azul

20 - Uma frase
"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena"  - Fernando Pessoa

À semelhança do outro post, eu deixo o desafio a todos vós para responderem a esta TAG e peço-vos que deixem o link nos comentários caso decidam responder, para eu depois ver as vossas respostas.
Até à próxima
xoxo

Moby

Ouvir em modo replay #9 - The Last Day

julho 26, 2016


He was searching
Blindly night and day
This life, there must be more 
Breaking beauty,
His heart was like a stone
Just to stay awake


Bom dia, alegria!
Hoje trago-vos a música que não me sai da cabeça nos últimos dias. Quem vê a novela "Verdades Secretas" na SIC de certeza que vai reconhecer.
A música transmite uma sensação de tranquilidade e é óptima para relaxar à beira-mar enquanto se trabalha no bronze.
O videoclip é uma verdadeira obra de arte. Para quem adora viajar, como eu, ver estas imagens da Índia, sem edição, a mostrar a verdadeira realidade, faz-me querer agarrar numa mochila e partir à descoberta deste maravilhoso país Oriental.

Espero que gostem
Até à próxima
xoxo

Leituras

Leituras #1 - O meu Segredo de Maria Helena

julho 25, 2016


Bom dia, alegria!
O fim-de-semana começou bem. Encontrei um cabo USB que dava para a minha máquina aqui em casa. Tinha algumas fotos armazenadas na máquina e consegui passá-las para o computador.
Algumas dessas fotos dizem respeito a este post, que já deveria ter saído há algum tempo, mas como vos expliquei em posts anteriores,andei muito atarefada e o tempo não esticou. Mas, como bom português diz, mais vale tarde do que nunca (risos).
Eu tive muito tempo livre em Tomar e aproveitei para fazer algo que geralmente não consigo em alturas normais e que gosto muito, que é ler. Depois de terminar o livro que trouxe comigo (o qual falarei noutro post porque faz parte de uma trilogia), imediatamente fiquei com vontade de iniciar outra leitura. A minha tia, que é tão fã de promoções como eu, chegou a casa com um livro que estava numa promoção imperdível e emprestou-mo para ler. Assim de repente, e olhando para o título e, principalmente, para a autora, nunca seria algo que fosse escolher para ler. Mas, como não se deve julgar um livro só pela capa, decidi dar uma oportunidade e li-o.


O livro surpreendeu-me pela positiva. É um livro de leitura muito rápida e simples, com uma organização apelativa e subdividida em capítulos e subcapítulos (desde vida pessoal e amorosa até à vida profissiona). A autora tanto fala sobre episódios da sua vida pessoal, relacionados com esses mesmos temas como depois apresenta histórias de pessoas que passaram pelo seu consultório.


As soluções que a autora apresenta são surpreendentemente realistas e fazíveis. Não se trata daquelas soluções filosóficas e básicas do "acredite em você", mas sim mostrar o quanto as pessoas têm poder de escolha nas suas vidas.
Não é daqueles livros que muda a vida de uma pessoa, mas é daqueles livros que tem uma mensagem muito positiva e que é bem capaz de ter um impacto positivo nas pessoas que se sentem mais em baixo ou em dificuldades na vida.



Veredicto final: É um livro de leitura bastante leve, portanto para quem não quer pensar demasiado é bom. Se conhecem aguém que esteja a passar um mau bocado na vida, considerem oferecer-lhes o livro. Pessoalmente não acredito que o livro seja a solução mágica, mas, como disse em cima, é mais pela forma tão positiva e realista de encarar os problemas

Entretanto já li mais um livro e vou a caminho de terminar outro. É bom aproveitar enquanto se pode. Espero que tenham gostado e deixem nos comentários mais sugestões de livros para o Verão (se quiserem deixem o link dos vossos blogues com posts correspondentes)
Até à próxima
xoxo

*Sim, estou a usar o Primetag e por cada clique nas imagens, o blogue recebe uma comissão (de valor simbólico). Acima de tudo estou a usar porque fica mais fácil de organizar imagens com os links. 

Medicina

Medicina - A realidade atual

julho 23, 2016


Bom dia, alegria!
Estamos em época de escolha de cursos, decisão que é sempre difícil, já que vai ditar, quem sabe, o que vamos fazer para o resto das nossas vidas. Existe imensa oferta, o que deixa qualquer um confuso. Eu lembro-me que também andei assim, tinha uma boa média (ainda por cima por ser madeirense usufria do contingente especial, o que me permitia entrar em qualquer faculdade do país) e consultei imensos planos de estudo em várias faculdades, de vários cursos, até eventualmente escolher aquilo que queria. 
Eu escolhi Medicina na Universidade do Minho, porque na altura andava meia inclinada para a investigação e porque tinha um programa de estudos diferente das outras faculdades mais "clássicas" (essas diferenças estão a diminuir, porque as faculdades estão a adoptar um programa semelhante ao nosso).

(aviso, este texto vai ser muito, mas muito longo)

Fonte

No post de hoje quero falar de algumas realidades da Medicina em Portugal, porque infelizmente a comunicação social cria algumas ilusões na cabeça dos alunos (e dos pais, e da população em geral) e quando entram na realidade do curso são confrontados com coisas que ninguém fala a não ser quem está na área.
Se formos ler e ver tudo o que a comunicação social diz sobre o curso e sobre a profissão de médico, estas são as conclusões que se chega:
- o desemprego médico é de 0%
- toda a gente tem colocação no mercado de trabalho após terminar o curso
- os médicos ganham fortunas (50€/h ou 1500 euros num dia)
- há falta de médicos

Quem não conhece a realidade, porque esta não é transmitida de forma correcta, pensa que o curso de Medicina é um óptimo investimento porque tem emprego garantido, porque traz prestígio e porque vai ganhar imenso dinheiro.
Mas será que é mesmo assim?
A realidade é que NÃO, não é bem assim.

A primeira coisa que as pessoas não tem a noção é o tempo. O tempo que leva a uma pessoa ser médico especialista que é quando pode ser totalmente independente. A segunda coisa é acharem que Medicina é uma licenciatura como todas as outras. A terceira é acharem que depois de se concluir o curso, já se pode fazer tudo. E a quarta é acharem que se trabalha pouco, é que é só estar sentado num consultório ou a passear de bata branca e estetoscópio pelo hospital com um ar de arrogância.

A Licenciatura, que na verdade é um Mestrado Integrado

Não há nenhuma licenciatura igual à outra,. Todas têm as suas particularidades. 
Ao contrário dos outros cursos, Medicina é um curso de 6 anos (seis anos!!!!).  Mas não é só no tempo que está a diferença. É essencialmente na estrutura do curso. Genericamente (posso depois fazer  outro post sobre o assunto) os primeiros 3 anos são constituídos por cadeiras (ou disciplinas) mais teóricas como Anatomia, Fisiologia, Histologia, Farmacologia, Genética, Microbiologia, etc. Vamos tendo um cheirinho da parte clínica, mas este passa a ser a constante das nossas vidas nos últimos 3 anos, em que vamos fazendo rotações pelos vários serviços dos hospitais que a Universidade tem "contrato". No fim, apresentamos a tese de mestrado.

Fonte
Aquele livrinho fantástico que temos de estudar no exame de acesso à especialidade

E depois do curso?

Depois de 6 anos, de muito suor e lágrimas, acabam o curso. Mas o trabalho não fica por aqui. Em Novembro do ano que acabam o cuso fazem um exame que vos dará acesso à especialidade, exame esse que vai testar as vossas capacidades de memorização. Com sorte, quando aqueles que entrarem agora  terão um exame mais bem estruturado, com perguntas clínicas.
Depois terão um ano comum, em que escolhem um hospital e fazem alguns estágios que é OBRIGATÓRIO a todos os estudantes e a partir daqui já é remunerado (daí que haja 0% de desemprego no fim do curso). No fim deste ano têm autonomia. Ou seja, basicamente podem prescrever.
Depois, seriados pelas notas de exame (E a partir de 2019 com a média a entrar na equação), escolhem a especialidade. Irão para um novo hospital ou centro de saúde e durante 4 a 6 anos terão de cumprir um programa de formação regulamentado pela lei, que passa por efetuar estágios em diferentes especialidades e ter um número mínimo de procedimentos. Ao fim desse tempo todo, farão um exame de especialidade e finalmente serão especialistas.
Conclusão: só ao fim de, no mímino, 11 a 13 a anos serão especialistas. Pouco tempo não é? #sóquenão

E depois de concluir a especialidade?

Há um concurso público, em que o Governo define que vagas são necessárias em cada hospital e os candidatos escolhem o lugar consoante a nota do seu percurso de formação de especialidade.

O que realmente se anda a passar?


As faculdades estão a abarrotar de alunos
Se forem consultar os rácios (cliquem aqui) vêem que há certos estágios em que um tutor (médico especialista) fica com imensos alunos. Não deve haver nada mais desagradável para um doente, do que ter 10 pessoas à volta dele a examiná-lo. Só que ao contrário do que as pessoas devem pensar, Medicina não se aprende nas salas de aulas. Aprende-se nas enfermarias, nas cirurgias, nas urgências. As competências clínicas e humanas que deveriam ser transversais a todos os médicos, implicam prática, prática, prática. Ou seja, é completamente irrealista 8 alunos fazerem uma palpação abdominal ou fazerem uma história clínica (que implica fazer uma série de perguntas, algumas delas muito pessoais e fazer um exame da cabeça aos pés) ao mesmo doente. Eu tive sorte, na minha faculdade, os rácios são aceitáveis, mas em determinadas áreas (como por exemplo Cirurgia) não é possível aprendermos alguns gestos clínicos (exemplo: suturar), porque antes de nós aprendermos, têm de aprender os internos.
É por esta razão que a ANEM (Associação Nacional dos Estudantes de Medicina) defende uma redução do numerus clausus, medida altamente impopular. Eu percebo, a sério que percebo que muita gente tem o sonho de entrar em Medicina e percebo que achem que esta redução é puramente cooperativa. Mas acredito que querem um ensino com qualidade, certo? Querem aprender a fazer as coisas, certo? Não vão conseguir se houver excesso de alunos nas faculdades.
E o problema não fica por aqui

Neste momento, não há vagas de especialidade para todos os internos do ano comum. Porquê?
Os serviços estão todos no limite: para ser especialista, há um número mínimo de procedimentos que se têm de cumprir (exemplo: 100 cirurgias à vesícula; 300 ecocardiogramas, tipo isto, num ano). Como podem imaginar o número de doentes é limitado. Se se tem demasiados internos, há menos oportunidades para se aprender as competências necessárias à especialidade e isso obviamente vai ter implicações na qualidade de formação. 
E a disponibilidade para ensinar há? Outro grande problema. Começa a faltar quem ensine os mais novos, porque já têm internos a seu incargo e ser orientador dá trabalho.
Para terem uma noção, o concurso de acesso à especialidade é constituído pelos alunos que tiraram o curso cá e os que tiraram o curso lá fora e contabiliza perto de 2000 médicos. Este ano abriram 1600 vagas para acesso à especialidade. Ou seja, 400 pessoas iriam ficar fora. O que algumas pessoas fizeram foi desistir do concurso para repetirem o exame novamente e só entrarem no concurso do próximo ano, quiçá com melhor nota. No fim, "só" 200 pessoas não escolheram especialidade. Qual é o destino dessa gente? Emigrar? Repetir o exame? Ficar à mercê dos abutres das empresas de prestação de serviço? 

Há falta de médicos?
Não. O que há é uma má distribuição dos recursos pelo país. E o quê que isso faz? Menos possibilidade para que determinados hospitais abram vagas para formar internos, por não terem ninguém que os ensine. 
Quando se diz que há falta de médicos numa determinada região, a solução não é abrir mais vagas em Medicina, porque facilmente se percebe que para formar um médico que vá para essa região demora no mínimo 11 anos (se estivermos a falar da especialidade de Medicina Geral e Familiar, se for uma Cirurgica demora 13). A solução é criar condições atractivas para fixar médicos nessa região. E criá-las para os médicos portugueses também, porque infelizmente algumas condições só são oferecidas aos estrangeiros.
Outro problema é que é expectável que o número de médicos aumente substancialmente nos próximos anos, porque entretanto o número de alunos subiu. E isso já é visível só pelo facto de não haver especialidade para todos. 
Imaginem o que é: entrar no curso dos vossos sonhos, estudarem durante 6 anos, terminarem o curso e não ser possível tirarem uma especialidade (que é obrigatório em Portugal) Sabem o que isto é? Não é fomentar a competição, como os defensores do desemprego em Medicina apregoam. É desperdiçar recursos do Estado e atirar o dinheiro que gastaram com a nossa formação pela janela fora. Quem beneficia são os países que vêm a Portugal recrutar estes recém médicos, com os quais não tiveram que gastar um tostão, e formá-los no seu país, nas especialidades que precisam.
Com isto tudo, aquela treta que algumas pessoas dizem de "deviam obrigar os médicos a trabalhar 5 ou 6 anos no estado para pagarem o seu curso" cai por terra. Porque se eu não tenho acesso à especialidade, nada posso fazer pelo meu país, a não ser explorado por empresas de prestação de serviços que não me vão pagar o mesmo que pagam a outro médico especialista. O Estado não pode contratar não-especialistas para colmatar falhas que existem nos hospitais, porque é ilegal e porque muitas dessas falhas implicam ter gente formada e com especialidade.

E então aquelas notícias de médicos a ganhar 1500 euros por dia?
Meus amigos!! Eles são a excepção, não a regra! 
Querem mesmo saber quando ganha um médico? Cliquem neste link, que corresponde às tabelas salariais (desde então houve alterações, o governo cortou no pagamento das horas extraordinárias, etc.) Realmente, se eu comparar com outros licenciados que são explorados, não temos assim muitas razões de queixa. Mas se eu for comparar com o trabalho que se tem, com a exigência que é pedida e com a responsabilidade que temos nas nossas mãos, não, não é justo.
Agora imaginem: vocês são especialistas: se uma empresa vos oferece 50€/hora (fora os descontos e a comissão da empresa) para irem fazer duas urgências a um hospital, vocês vão recusar? A verdadeira questão é saber porquê que os hospitais/Estado preferem pagar isso a empresas em vez de contratar mais médicos para os quadros ou pagar horas extra (9€/hora) aos médicos que pertencem ao quadro.

Escusado será dizer que se vai haver ainda mais médicos no futuro, as empresas de prestação de serviço vão pagar cada vez menos. Então se não tiverem especialidade, se não podem ser contratados pelo Estado e estiverem desesperados por dinheiro (porque ao contrário do que algumas pessoas pensam, os médicos não se alimentam do ar nem vivem em casas oferecidas.. sim.. isto é para quem diz que os médicos deviam trabalhar de borla) vão acabar por se sujeitar às condições que forem oferecidas (mais ou menos a exploração ridícula e atroz que fazem aos enfermeiros). O mesmo vai se aplicar à privada. Se não tiverem "fama", também não pensem que vão ganhar fortunas. 

Quanto aqueles com ar de arrogante, apenas digo uma coisa: há gente estúpida em todas as profissões, medicina não é excepção.

CONCLUSÃO
- o vosso sonho é Medicina? querem ser médicos? querem salvar vidas? Então escolham Medicina. Vai ser cansativo, vão sentir todos os dias na pele injustiças e olhares de repúdio quando passarem pelas enfermarias e pela urgência. Vai haver dias em que a desmotivação vai ganhar. Mas, apesar de tudo isso, vão acabar por adorar aquilo que fazem e vão acabar por aceitar alguns sacrifícios, porque quem corre por gosto não cansa (tanto). 
- estão a pensar escolher Medicina porque é emprego garantido? Preparem-se para trabalhar no duro. E trabalhar no duro para se fazer algo que não é aquilo que gostam deve ser muito triste
- é pelo dinheiro a escolha?  Para além de terem de trabalhar no duro, vão ter que trabalhar em vários sítios (se conseguirem). Esqueçam a vida pessoal e familiar. E não, não parecer aqueles médicos de novela.

Como vêem este post está enorme, mas acreditem, isto é um resumo da situação. Alias, nem falo aqui das repercusões que uma pobre formação em Medicina têm na população (isso dá outro testamento). Sei que, mesmo depois do meu depoimento, há-de haver sempre alguém que vai dizer que estou a exagerar, que só digo isto para afastar possíveis candidatos. A esses digo, depois desses candidatos entrarem vão ouvir o mesmo discurso. Adorava estar a mentir, mas não estou.
Se tiverem dúvidas deixem nos comentários que eu tento responder. 
Até à próxima
xoxo

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