Diário de uma IAC - Os resultados do Harrison

março 10, 2018

Olá!
Esta semana foi muito stressante para todos os Internos do Ano Comum (e alguns Internos de Formação Específica). Porquê? Porque foram finalmente publicados, na quarta-feira à noite, os resultados do Harrison, que é o exame que todos os médicos fazem no fim do curso, em Novembro, para serem seriados e, posteriomente, escolherem a especialidade. 


Eu tive a nota que estava à espera segundo a correção que saiu no dia seguinte à prova, o que significa que os meus receios que não tivesse passado as respostas corretamente para a folha não se confirmaram. O que eu não estava assim tanto à espera foi ficar tão abaixo na ordem de escolhas, embora não fosse assim tão surpreendente tal acontecer.
Há algum tempo escrevi este texto acerca da realidade da Medicina em Portugal. O texto continua atual e temo que a situação vá piorar nos próximos anos.

Apesar de, praticamente todos os dias ser referido na comuncação social/programas de entretenimento que faltam médicos em Portugal, na verdade o que falta são médicos especialistas. E é importante fazer esta distinção:
  • No fim dos 6 anos de curso de Medicina temos um médico que é indiferenciado, sem autonomia (se formado em Portugal).
  • Depois, é obrigatório frequentar o Ano Comum (que futuramente terá o nome de "Formação Geral") onde aquirimos um pouco mais de experiência clínica, para além daquela que aprendemos durante o curso, ao passar por várias valências como Pediatria, Medicina Interna, Cirurgia, Medicina Geral e Familiar e exercemos de forma condicionada. No fim, e se aproveitamento em todas as áreas, é nos dada autonomia. Durante este ano, após sairem as notas, sai a lista de vagas para a especialidade hospitais/centros de saúde e as escolhas acontecem em Junho.
  • No ano seguinte inicia-se a Formação Específica que, consoante a especialidade, dura 4 a 6 anos, com muitas avalições, apresentação de trabalhos, frequência em formações/estágios e, principalmente, muito trabalho. O interno está nas enfermarias, consultas, salas de exames, urgências e bloco operatório, sendo-lhe exigido o conhecimento teórico (que não é leccionado em meio académico, mas sim estudado em casa) e a aprendizagem é feita in loco, a ver e a fazer. No fim disto tudo e após aprovação é concedido o grau de especialista.
  • Depois de obter o grau de especialista? Teoricamente o Estado abre concurso pouco depois para colocar esses especialistas nos hospitais onde são necessários. Na prática, o que tem acontecido é que o Estado tem demorado a abrir o concurso e, se acompanharam os noticiários, sabem que finalmente abriu concurso, com 1 ano de atraso, para contratar 500 especialistas da área hospitalar e 100 da área dos cuidados primários (centro de saúde). Entretanto alguns fartaram-se de esperar da indefinição criada pela ausência de concurso e optaram pelo privado ou pela emigração.
Não é um médico indiferenciado que vai dar consultas, operar e fazer exames. No mínimo é um interno de especialidade, integrado em equipa. Por isso, por muitas vagas que abra em Medicina, de nada vale se no fim do curso não existirem vagas para a especialidade.

Mas afinal, como está a situação atual?
Se foram ao site da ACSS conseguem ver quantas pessoas fizeram o exame de acesso à especialidade. De forma arredondada, foram 2500 médicos (tirando já aqueles que desistiram). Por ano abrem cerca de 1800 vagas para iniciar a Formação Específica. Fazendo as contas, serão 700 que ficam de fora. Que nota tiveram essas pessoas? De 59% para baixo ou pessoas com notas superiores que não conseguem a área que querem. À primeira vista até pode parecer que não é mau de todo, que estas pessoas não sabem tanto como as que tiraram 80 ou 90%, contudo convém relembrar que este é um exame de 100 perguntas de escolha múltipla (que implica decorar muita coisa) que incide em 5 áreas: Cardiologia, Pneumologia, Gastroenterologia, Nefrologia e Hematologia. Tirar 59% é muito relativo. Se calhar essa pessoa acertou nas 20 perguntas de Pneumologia e Gastroenterologia (duas áreas que domina muito bem) mas falhou as de Hematologia e acertou em metade das de Nefrologia e Cardiologia. Se calhar aquele indivíduo que tirou 30%  é um ás da neurocirurgia, dominado muito bem os conhecimentos/skils dessa área em particular, sem ter interesse algum nas áreas avaliadas pelo Harrison. A Miss Tangerine publicou um vídeo no Youtube onde fala sobre "como lidar com o fracasso", relacionado com o facto da nota que ela tirou não ser aquilo que ela estava à espera nem dar para a área que ela deseja, optando, assim, por repetir o exame (e ela teve muito mais que 59%!!)
A questão que fica é: o que vão fazer esses 700 médicos que não vão escolher especialidade? Muitos vão repetir o exame, alguns vão emigrar porque já perceberam que será impossível conseguirem aquilo que querem em Portugal, alguns vão ficar como "tarefeiros" à mercê de empresas privadas que o Estado contractualiza para assegurar urgências, gastanto milhões de euros que poderiam ser gastos a contratar especialistas que certamente ofereceriam cuidados mais diferenciados e experientes.

E a mim, como correu?
Como vos disse inicialmente, a nota foi a que estava à espera, sendo que a posição onde estou é que me surpreendeu um pouco. Para terem a noção, há 2 anos teria ficado nos primeiros 600 lugares e agora fiquei muito perto dos primeiros 1000 lugares. Felizmente dá para algumas das áreas que gosto imenso (que eu não revelar, por enquanto para não dar azar xD), mas já não chega para outras que gostava inicialmente (tendo em conta as tendências de anos anteriores). Se forem cuscos o suficiente conseguem saber que nota tive (eheheheheh).

O mapa de vagas para este ano só sai lá para fins de Maio, o que significa que, até lá tenho muito tempo para pensa sobre o assunto. Entretanto, já sabem que me podem seguir por aqui ou pelo Instagram (onde sou um pouco mais ativa). Se tiverem alguma dúvida, não hesitem em deixá-la na caixa dos comentários.

Um excelente fim-de- semana!
xoxo

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4 comentários

  1. Em medicina veterinária também estudamos os 6 primeiros anos, mas ao contrário da medicina humana, não temos especializações depois. Ou seja, começamos a trabalhar, atirados aos lobos com conhecimentos gerais de tudo, mas sem uma prática concreta. Temos de ser nós próprios a pesquisar pequenos cursos e pós-graduações para nos irmos "especializando", sem, no fundo, ser uma especialização. Para além de todas as áreas que a medicina humana tem, ainda temos de estudar as especificidades de cada espécie. Por exemplo, eu que adoro animais exóticos e selvagens, tenho de saber tudo sobre nutrição, cardiologia, neurologia, gastroenterologia sobre repteis (e variam entre eles), aves e mamíferos.
    Já trabalho há dois anos, e muitas vezes penso o que é que andei a fazer na universidade, porque na verdade parece que ando a aprender tudo de novo.
    Um beijinho grande*
    Vinte e Muitos

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  2. Não acho nada que o sistema de atribuição das vagas para especialidade seja justo... além de deverem assegurar vagas para toda a gente (afinal, acabaram todos o curso, certo?), fazerem a decisão baseando-se unicamente num exame escrito não faz grande sentido.

    Fico à espera de saber qual vai ser a tua escolha (=

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  3. É, realmente, um processo complicado para conseguir ficar na área que se pretende. É compreensível, por um lado, a exigência, mas, por outro, penso que esse processo priva demasiado de oportunidades...

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  4. Tenho amigos em Medicina e, realmente, não está nada fácil para vocês. Esse processo todo é extremamente cansativo e demasiado rigoroso. Compreendo que tenha que existir exigência, mas todo esse processo é demasiado lento, doloroso e, pior ainda, corta a perna a muito estudantes dedicados.
    Beijinhos
    Blog: Life of Cherry

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