sábado, 23 de julho de 2016

Medicina - A realidade atual


Bom dia, alegria!
Estamos em época de escolha de cursos, decisão que é sempre difícil, já que vai ditar, quem sabe, o que vamos fazer para o resto das nossas vidas. Existe imensa oferta, o que deixa qualquer um confuso. Eu lembro-me que também andei assim, tinha uma boa média (ainda por cima por ser madeirense usufria do contingente especial, o que me permitia entrar em qualquer faculdade do país) e consultei imensos planos de estudo em várias faculdades, de vários cursos, até eventualmente escolher aquilo que queria. 
Eu escolhi Medicina na Universidade do Minho, porque na altura andava meia inclinada para a investigação e porque tinha um programa de estudos diferente das outras faculdades mais "clássicas" (essas diferenças estão a diminuir, porque as faculdades estão a adoptar um programa semelhante ao nosso).

(aviso, este texto vai ser muito, mas muito longo)

Fonte

No post de hoje quero falar de algumas realidades da Medicina em Portugal, porque infelizmente a comunicação social cria algumas ilusões na cabeça dos alunos (e dos pais, e da população em geral) e quando entram na realidade do curso são confrontados com coisas que ninguém fala a não ser quem está na área.
Se formos ler e ver tudo o que a comunicação social diz sobre o curso e sobre a profissão de médico, estas são as conclusões que se chega:
- o desemprego médico é de 0%
- toda a gente tem colocação no mercado de trabalho após terminar o curso
- os médicos ganham fortunas (50€/h ou 1500 euros num dia)
- há falta de médicos

Quem não conhece a realidade, porque esta não é transmitida de forma correcta, pensa que o curso de Medicina é um óptimo investimento porque tem emprego garantido, porque traz prestígio e porque vai ganhar imenso dinheiro.
Mas será que é mesmo assim?
A realidade é que NÃO, não é bem assim.

A primeira coisa que as pessoas não tem a noção é o tempo. O tempo que leva a uma pessoa ser médico especialista que é quando pode ser totalmente independente. A segunda coisa é acharem que Medicina é uma licenciatura como todas as outras. A terceira é acharem que depois de se concluir o curso, já se pode fazer tudo. E a quarta é acharem que se trabalha pouco, é que é só estar sentado num consultório ou a passear de bata branca e estetoscópio pelo hospital com um ar de arrogância.

A Licenciatura, que na verdade é um Mestrado Integrado

Não há nenhuma licenciatura igual à outra,. Todas têm as suas particularidades. 
Ao contrário dos outros cursos, Medicina é um curso de 6 anos (seis anos!!!!).  Mas não é só no tempo que está a diferença. É essencialmente na estrutura do curso. Genericamente (posso depois fazer  outro post sobre o assunto) os primeiros 3 anos são constituídos por cadeiras (ou disciplinas) mais teóricas como Anatomia, Fisiologia, Histologia, Farmacologia, Genética, Microbiologia, etc. Vamos tendo um cheirinho da parte clínica, mas este passa a ser a constante das nossas vidas nos últimos 3 anos, em que vamos fazendo rotações pelos vários serviços dos hospitais que a Universidade tem "contrato". No fim, apresentamos a tese de mestrado.

Fonte
Aquele livrinho fantástico que temos de estudar no exame de acesso à especialidade

E depois do curso?

Depois de 6 anos, de muito suor e lágrimas, acabam o curso. Mas o trabalho não fica por aqui. Em Novembro do ano que acabam o cuso fazem um exame que vos dará acesso à especialidade, exame esse que vai testar as vossas capacidades de memorização. Com sorte, quando aqueles que entrarem agora  terão um exame mais bem estruturado, com perguntas clínicas.
Depois terão um ano comum, em que escolhem um hospital e fazem alguns estágios que é OBRIGATÓRIO a todos os estudantes e a partir daqui já é remunerado (daí que haja 0% de desemprego no fim do curso). No fim deste ano têm autonomia. Ou seja, basicamente podem prescrever.
Depois, seriados pelas notas de exame (E a partir de 2019 com a média a entrar na equação), escolhem a especialidade. Irão para um novo hospital ou centro de saúde e durante 4 a 6 anos terão de cumprir um programa de formação regulamentado pela lei, que passa por efetuar estágios em diferentes especialidades e ter um número mínimo de procedimentos. Ao fim desse tempo todo, farão um exame de especialidade e finalmente serão especialistas.
Conclusão: só ao fim de, no mímino, 11 a 13 a anos serão especialistas. Pouco tempo não é? #sóquenão

E depois de concluir a especialidade?

Há um concurso público, em que o Governo define que vagas são necessárias em cada hospital e os candidatos escolhem o lugar consoante a nota do seu percurso de formação de especialidade.

O que realmente se anda a passar?


As faculdades estão a abarrotar de alunos
Se forem consultar os rácios (cliquem aqui) vêem que há certos estágios em que um tutor (médico especialista) fica com imensos alunos. Não deve haver nada mais desagradável para um doente, do que ter 10 pessoas à volta dele a examiná-lo. Só que ao contrário do que as pessoas devem pensar, Medicina não se aprende nas salas de aulas. Aprende-se nas enfermarias, nas cirurgias, nas urgências. As competências clínicas e humanas que deveriam ser transversais a todos os médicos, implicam prática, prática, prática. Ou seja, é completamente irrealista 8 alunos fazerem uma palpação abdominal ou fazerem uma história clínica (que implica fazer uma série de perguntas, algumas delas muito pessoais e fazer um exame da cabeça aos pés) ao mesmo doente. Eu tive sorte, na minha faculdade, os rácios são aceitáveis, mas em determinadas áreas (como por exemplo Cirurgia) não é possível aprendermos alguns gestos clínicos (exemplo: suturar), porque antes de nós aprendermos, têm de aprender os internos.
É por esta razão que a ANEM (Associação Nacional dos Estudantes de Medicina) defende uma redução do numerus clausus, medida altamente impopular. Eu percebo, a sério que percebo que muita gente tem o sonho de entrar em Medicina e percebo que achem que esta redução é puramente cooperativa. Mas acredito que querem um ensino com qualidade, certo? Querem aprender a fazer as coisas, certo? Não vão conseguir se houver excesso de alunos nas faculdades.
E o problema não fica por aqui

Neste momento, não há vagas de especialidade para todos os internos do ano comum. Porquê?
Os serviços estão todos no limite: para ser especialista, há um número mínimo de procedimentos que se têm de cumprir (exemplo: 100 cirurgias à vesícula; 300 ecocardiogramas, tipo isto, num ano). Como podem imaginar o número de doentes é limitado. Se se tem demasiados internos, há menos oportunidades para se aprender as competências necessárias à especialidade e isso obviamente vai ter implicações na qualidade de formação. 
E a disponibilidade para ensinar há? Outro grande problema. Começa a faltar quem ensine os mais novos, porque já têm internos a seu incargo e ser orientador dá trabalho.
Para terem uma noção, o concurso de acesso à especialidade é constituído pelos alunos que tiraram o curso cá e os que tiraram o curso lá fora e contabiliza perto de 2000 médicos. Este ano abriram 1600 vagas para acesso à especialidade. Ou seja, 400 pessoas iriam ficar fora. O que algumas pessoas fizeram foi desistir do concurso para repetirem o exame novamente e só entrarem no concurso do próximo ano, quiçá com melhor nota. No fim, "só" 200 pessoas não escolheram especialidade. Qual é o destino dessa gente? Emigrar? Repetir o exame? Ficar à mercê dos abutres das empresas de prestação de serviço? 

Há falta de médicos?
Não. O que há é uma má distribuição dos recursos pelo país. E o quê que isso faz? Menos possibilidade para que determinados hospitais abram vagas para formar internos, por não terem ninguém que os ensine. 
Quando se diz que há falta de médicos numa determinada região, a solução não é abrir mais vagas em Medicina, porque facilmente se percebe que para formar um médico que vá para essa região demora no mínimo 11 anos (se estivermos a falar da especialidade de Medicina Geral e Familiar, se for uma Cirurgica demora 13). A solução é criar condições atractivas para fixar médicos nessa região. E criá-las para os médicos portugueses também, porque infelizmente algumas condições só são oferecidas aos estrangeiros.
Outro problema é que é expectável que o número de médicos aumente substancialmente nos próximos anos, porque entretanto o número de alunos subiu. E isso já é visível só pelo facto de não haver especialidade para todos. 
Imaginem o que é: entrar no curso dos vossos sonhos, estudarem durante 6 anos, terminarem o curso e não ser possível tirarem uma especialidade (que é obrigatório em Portugal) Sabem o que isto é? Não é fomentar a competição, como os defensores do desemprego em Medicina apregoam. É desperdiçar recursos do Estado e atirar o dinheiro que gastaram com a nossa formação pela janela fora. Quem beneficia são os países que vêm a Portugal recrutar estes recém médicos, com os quais não tiveram que gastar um tostão, e formá-los no seu país, nas especialidades que precisam.
Com isto tudo, aquela treta que algumas pessoas dizem de "deviam obrigar os médicos a trabalhar 5 ou 6 anos no estado para pagarem o seu curso" cai por terra. Porque se eu não tenho acesso à especialidade, nada posso fazer pelo meu país, a não ser explorado por empresas de prestação de serviços que não me vão pagar o mesmo que pagam a outro médico especialista. O Estado não pode contratar não-especialistas para colmatar falhas que existem nos hospitais, porque é ilegal e porque muitas dessas falhas implicam ter gente formada e com especialidade.

E então aquelas notícias de médicos a ganhar 1500 euros por dia?
Meus amigos!! Eles são a excepção, não a regra! 
Querem mesmo saber quando ganha um médico? Cliquem neste link, que corresponde às tabelas salariais (desde então houve alterações, o governo cortou no pagamento das horas extraordinárias, etc.) Realmente, se eu comparar com outros licenciados que são explorados, não temos assim muitas razões de queixa. Mas se eu for comparar com o trabalho que se tem, com a exigência que é pedida e com a responsabilidade que temos nas nossas mãos, não, não é justo.
Agora imaginem: vocês são especialistas: se uma empresa vos oferece 50€/hora (fora os descontos e a comissão da empresa) para irem fazer duas urgências a um hospital, vocês vão recusar? A verdadeira questão é saber porquê que os hospitais/Estado preferem pagar isso a empresas em vez de contratar mais médicos para os quadros ou pagar horas extra (9€/hora) aos médicos que pertencem ao quadro.

Escusado será dizer que se vai haver ainda mais médicos no futuro, as empresas de prestação de serviço vão pagar cada vez menos. Então se não tiverem especialidade, se não podem ser contratados pelo Estado e estiverem desesperados por dinheiro (porque ao contrário do que algumas pessoas pensam, os médicos não se alimentam do ar nem vivem em casas oferecidas.. sim.. isto é para quem diz que os médicos deviam trabalhar de borla) vão acabar por se sujeitar às condições que forem oferecidas (mais ou menos a exploração ridícula e atroz que fazem aos enfermeiros). O mesmo vai se aplicar à privada. Se não tiverem "fama", também não pensem que vão ganhar fortunas. 

Quanto aqueles com ar de arrogante, apenas digo uma coisa: há gente estúpida em todas as profissões, medicina não é excepção.

CONCLUSÃO
- o vosso sonho é Medicina? querem ser médicos? querem salvar vidas? Então escolham Medicina. Vai ser cansativo, vão sentir todos os dias na pele injustiças e olhares de repúdio quando passarem pelas enfermarias e pela urgência. Vai haver dias em que a desmotivação vai ganhar. Mas, apesar de tudo isso, vão acabar por adorar aquilo que fazem e vão acabar por aceitar alguns sacrifícios, porque quem corre por gosto não cansa (tanto). 
- estão a pensar escolher Medicina porque é emprego garantido? Preparem-se para trabalhar no duro. E trabalhar no duro para se fazer algo que não é aquilo que gostam deve ser muito triste
- é pelo dinheiro a escolha?  Para além de terem de trabalhar no duro, vão ter que trabalhar em vários sítios (se conseguirem). Esqueçam a vida pessoal e familiar. E não, não parecer aqueles médicos de novela.

Como vêem este post está enorme, mas acreditem, isto é um resumo da situação. Alias, nem falo aqui das repercusões que uma pobre formação em Medicina têm na população (isso dá outro testamento). Sei que, mesmo depois do meu depoimento, há-de haver sempre alguém que vai dizer que estou a exagerar, que só digo isto para afastar possíveis candidatos. A esses digo, depois desses candidatos entrarem vão ouvir o mesmo discurso. Adorava estar a mentir, mas não estou.
Se tiverem dúvidas deixem nos comentários que eu tento responder. 
Até à próxima
xoxo

4 comentários:

  1. A realidade em Medicina Veterinária é semelhante (no que toca ao curso, já que não existem hospitais públicos). Muito suor, muito estudo (as cadeiras são semelhantes). Ao fim dos 7 anos de curso, saímos meio abananados, ainda sem saber grande coisa. E depois é cada um por si: quem quiser faz mais cursos e pós-graduações na especialidade que mais gosta, outros começam logo em estágios profissionais em modo escravatura, enfim...

    Beijinho* BATIK by Olivia Muniz || FACEBOOK || JASMIM & MESKA, os gatos mais fofos do mundo!

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  2. Olá, Sofia! :)

    Gostei MUITO de ler este post! Não fazia ideia de determinadas coisas e é sempre bom saber mais sobre um curso de que tanto se ouve falar (por vezes, coisas não muito verdadeiras, como mencionaste acima).

    Quanto ao meu post, eu compreendo perfeitamente aquilo que disseste! Eu mesma repudio o jornalismo sensacionalista do Correio da Manhã! Aquilo que queria explicar (eu sei, não me expressei bem) é que tenho medo do fim da liberdade de expressão e, sinceramente, admiro o Cristiano Ronaldo e acho que a sua atitude não correspondeu aos seus valores. Tirar o microfone a um jornalista (mesmo que não seja um jornalista no sentido completo da palavra, não é, tem a carteira profissional) é errado. E sim, falam pessimamente dele e denigrem a sua imagem mas mais vale ignorá-los ou pôr-lhes processos e mais processos em cima para ver se param com a estupidez, basicamente! Eu discordo TOTALMENTE do jornalismo praticado por esse meio de comunicação, atenção! Eu sei, parece que não "aprendem" através dos meios legais e precisam de uns sustos valentes, mas... De que é que servem coisas esse tipo se, depois, ainda vão vender o microfone e o diabo a sete???

    Tive muitas saudades tuas, rapariga! :)

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  3. Mesmo, mesmo. Super recomendo por cumprir com tudo aquilo que promete ;D

    Sei que Medicina é um curso trabalhoso mas nunca pensei que fosse tão "problemático" :o

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    InstagramFacebook Oficial PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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  4. Muito bom post! Realmente a sociedade não tem noção do que é ser estudante de medicina

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